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quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Metodologia para estudo de gênero dramático em oficinas de literatura

O texto abaixo apresenta uma sugestão de roteiro para o trabalho com o gênero dramático, em oficinas de literatura; desenvolvido com base em experiências realizadas nas turmas participantes do Emcantar.
Antes de mais nada, cabe-nos lembrar que a tradição aristotélica, segundo à qual os gêneros são divididos em lírico, épico e dramático é apenas uma base para nossas reflexões; e que os limites entre um gênero e outro são constantemente questionados. Tais modelos são apenas norteadores para a construção de um texto e jamais devem ser tidos como limitadores (ou seriam contrários à proposta de liberdade inerente à criação artística).
Segundo Massaud Moisés (professor e crítico literário), "os gêneros não são espartilhos sufocantes, nem moldes fixos, mas estruturas que a tradição milenar ensina serem básicas para a expressão do pensamento e de certas formas de ver a realidade circundante. Sua função é orientadora, guiadora e simplificadora" (p. 38).
Feitas tais considerações, lembramos ainda que o roteiro abaixo pode (e deve) ser adaptado, segundo o contexto em que será executado e que não pretende esgotar as possibilidades de trabalho com o gênero, nem trabalhar com definições muito aprofundadas dos termos relacionados ao tema.


Objetivos

Geral: promover um estudo do gênero dramático, por meio da produção coletiva de texto.
Específicos: (1) estudar o gênero dramático, seus elementos e características; (2) realizar um estudo comparativo entre os gêneros dramático e épico; (3) possibilitar o diálogo com o campo das artes cênicas, por meio de uma apresentação teatral.

Conteúdo: gênero épico; gênero dramático; personagens; cenários; atos; diálogos.

Tempo estimado: 4 ou 8 horas-aula (caso a 8ª etapa seja realizada).

Metodologia:

1ª etapa: Realizar a leitura coletiva de um conto (à escolha do mediador, segundo as preferências e níveis de leitura da turma) e discutir o texto, com base em perguntas como: (1) quem são os personagens da história? (2) quais são os principais acontecimentos da narrativa? (3) em que locais/espaços tais acontecimentos se passam?

2ª etapa: Produzir uma lista - com a participação de toda a turma - contendo todos os personagens da narrativa e discutir as suas características (físicas e psicológicas). Aqui, pode-se deixar em aberto a possibilidade de que os participantes nomeiem personagens que porventura não tenham sido nomeados no texto-base; ou que façam referência a eles somente segundo a sua função (exemplo: "um rei de um país distante", "o irmão mais velho", etc.)
Obs.: Caso a turma não tenha o perfil muito participativo, sugerimos utilizar o jogo da batata-quente como forma de "quebrar o gelo": aquele que ficar com a "batata" deve listar um personagem que ainda não tenha sido dito, até que todos tenham sido elencados.

3ª etapa: Produzir - com a participação de toda a turma - uma lista, elencando os espaços de destaque da narrativa e explicar o que é um cenário (local onde se passa algum fato); discutindo a importância do cenário para a composição de uma peça, enquanto elemento que influencia no clima e nos acontecimentos da história.

4ª etapa: Selecionar os momentos mais representativos da narrativa e elencá-los, cronologicamente, em poucos itens; explicando o que é um ato (cada uma das partes principais em que se divide uma peça). Sugerimos solicitar aos alunos que criem um título para cada ato, como forma de exercitar a capacidade de síntese e a organização dos acontecimentos.

5ª etapa: Com base nas três listas anteriores, redigir cada ato da peça, mostrando aos participantes que a história precisa ser contada por meio das falas/diálogos dos personagens e não por um narrador. Aqui, explicar o conceito de rubrica (nota curta, colocada em momentos do texto para fornecer informações não explícitas pelos diálogos, tais como: tom da cena, emoção a ser usada, ambiente, época, etc.). Há duas possibilidades de trabalho para esta etapa: dividir a turma em grupos, segundo o número de atos estabelecido na 4ª etapa (e solicitar que cada grupo escreva um ato); ou realizar a escrita coletiva, com a participação de toda a turma. O número de participantes e o perfil do grupo são elementos-chave para a escolha da possibilidade mais adequada.

6ª etapa: Montar um livreto com o texto completo e realizar a leitura coletiva do produto alcançado, analisando se a adaptação manteve o sentido do original.

7ª etapa: Produzir um quadro comparativo, elencando as diferenças percebidas entre o texto produzido (gênero dramático) e o texto-base (gênero épico); buscando uma definição conjunta para o que é o texto dramático, quais são os seus elementos e suas características.
Obs.: é desejável que os participantes já tenham tido contato com o estudo do gênero épico, antes de realizar esta atividade.

8ª etapa (opcional): Encenar a peça, numa apresentação artística (com cenários e figurinos construídos pela turma).

Com este roteiro, os participantes da oficina são capazes de estudar o gênero dramático, de modo interativo; construindo conceitos gradativamente e em coletividade. Destacamos assim os fatos de que: os participantes estudam o gênero a partir de um produto próprio (o que proporciona maior naturalidade ao aprendizado); e de que o gênero não é estudado isoladamente, mas em comparação com outro, possibilitando discussões muito ricas sobre os "limites" entre os gêneros literários.

Referências:

MOISÉS, Massaud. In: A criação literária. São Paulo: Melhoramentos, 1971.

Autora do Artigo:
Aline Caixeta, Arte-educadora do Projeto Tecnologia Escutatória, ministrante das Oficinas de Literatura. Graduada em Letras pela Universidade Federal de Uberlândia.


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